Pode ir tirando a roupa mesmo...Pelo menos 25 quilômetros separam os dois únicos redutos do naturismo na Região dos Lagos. Mas Praia Brava, em Cabo Frio, e Olho de Boi, em Búzios, compartilham características que vão além da nudez social: acessíveis apenas por trilhas de difícil percurso, ambas estão arraigadas em pequenos trechos de areia banhada por água límpida e transparente, um contraste irresistível com a Mata Atlântica que resguarda seus frequentadores.
A proteção, no entanto, termina aí: sem apoio das prefeituras, os adeptos precisam se organizar para reconquistar o credenciamento da Federação Brasileira de Naturismo. Apesar de tudo, continuam atraindo um sem-fim de dispostos a desnudar os preconceitos.
São pelo menos 30 minutos de caminhada intensa entre os limites da reservada Praia Brava, em Búzios,
até a Olho de Boi. Percorrer a trilha, estreita e íngreme, não é para qualquer um — tampouco é o naturismo, um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social, que tem por intenção encorajar o autorrespeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio ambiente, como define a Federação Brasileira de Naturismo.
Lá, o casal Julia, de 50 anos, e Pedro Luiz Soares, de 56, luta pelo recredenciamento da praia pela federação, que desassociou o lugar após inúmeros casos de assédio de suingueiros e da não adoção e respeito do código de ética naturista.
— É difícil formar uma associação que garanta o respeito ao código, e não temos apoio da prefeitura. O que
eles não percebem é que essa praia é um chamariz para o turismo de todo o mundo — defende Soares.
Sua mulher apoia.
— Precisamos de alguém para fazer a segurança. Caso contrário, é muito assédio de gente que não é ligada ao naturismo, e a propaganda negativa se espalha pelo boca a boca — reforça ela, que, ao lado do marido, frequenta aquelas areias livres há pelo menos 35 anos.
A falta de infraestrutura acaba pesando no bolso: marinheiros de primeira viagem, como as amigas paulistanas Janaína Oliveira e Lívia Collino, de 26 anos, desembolsaram R$ 10 pela garrafinha de meio litro de água, comercializada no local. Além disso, pagaram R$ 15 em um táxi marinho para retornar à Praia Brava.
— Mesmo assim, valeu a pena. Até tinha receio de não conseguir me sentir à vontade para tirar o biquíni, mas o mais difícil mesmo foi atravessar a trilha. É um cantinho de liberdade — defende Janaína, que, pela primeira vez, praticava a nudez social.
A presença de mulheres e homens desacompanhados já é um indício claro da falta de uma organização por trás da praia: elas, geralmente, só podem ser frequentadas por duplas, cada um de um sexo, a fim evitar o constrangimento de adeptos. A única exceção é a Praia de Abricó, na capital, credenciada e autorizada a permitir a entrada de pessoas sozinhas.
Mas, se em Búzios um grupo de pelo menos dez pessoas dividia os parcos 50 metros de faixa de areia, em
Cabo Frio, na Praia Brava, com extensão de cerca de 350 metros, apenas um banhista havia se aventurado,
numa quinta-feira, por uma das duas trilhas que isolam o local. O fisioterapeuta Talmeris Monteiro, de 44 anos, caminhava, nu e sozinho, pela praia deserta.
— Não é só a falta de informação e educação que afasta os frequentadores. É a de policiamento também.
Não são raros assaltos armados em trilhas ou areias. É uma grande falta de respeito, que não tem a ver com se estar vestido ou pelado. Tem a ver com postura e princípios — argumenta.
Com um litoral de mais de nove mil quilômetros de extensão, o Brasil reúne apenas sete praias credenciadas para a prática da nudez social. De acordo com o presidente da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN), João Olavo Roses, o credenciamento vai muito além de um título.
— O naturismo é dirigido pela FBrN, que é filiada a uma entidade internacional que estabelece regras para que o local possa ser considerado naturista. Isso quer dizer que essas praias credenciadas adotam um código de ética que garante a tranquilidade das famílias — explica.
Olho de Boi e Brava, as praias visitadas para esta reportagem, perderam o credenciamento há alguns anos
por “mau comportamento dos frequentadores”. Mas podem reavê-lo caso haja uma organização dos adeptos em uma associação que garanta o cumprimento de normas básicas de ética e moral. Segundo
Olavo Roses, basta que a nova entidade entre em contato com a federação pelo site <fbrn.org.br> ou pelo celular (51) 8194-6413.
— Estamos procurando os adeptos que utilizam frequentemente as duas praias e incentivando a formação de uma entidade, com quadro de sócios estável que se responsabilize pela aplicação do código de ética na praia e que faça uma escala de presença dos naturistas. Esse é o primeiro passo para o recredenciamento — ensina.
Segundo ele, no Brasil existem 31 lugares com o selo naturista, dos quais apenas sete são praias. Novos
redutos podem ser candidatados por naturistas pelos mesmos meios de contato — anualmente, a federação visita todos os locais credenciados e os candidatos, a fim de verificar a possibilidade de filiação.
— Naturismo é uma filoso- fia de vida, é muito mais do que ficar pelado. A definição do naturismo é viver em harmonia com a natureza. Lógico que a nudez social ajuda a exemplificar o conceito de respeito próprio e respeito a outras pessoas. Não adianta estar nu e jogar latinha de cerveja na areia. Tirar a roupa é uma metáfora, é tirar a primeira máscara para que você seja você mesmo — filosofa.
In Oglobo