Uma incrível sensação de déjà vu, foi o que senti ao me deparar com o narrador esportivo Galvão Bueno no último final de semana na casa do comentarista Arnaldo Cezar Coelho, em Geribá. A cena me pareceu familiar demais. O próprio Galvão me pareceu familiar demais. Já havia passado por algo parecido, quando fui com meu chefe Marcelo Lartigue no Programa do Jô Soares. Quando o gordinho passou e acenou para mim, retruquei como se responde a um amigo de infância.
Quando vi Galvão Bueno, tive a sensação que éramos amigos há anos. Ele me pereceu familiar demais. Próximo demais. Por alguns segundos, fiquei confuso. Lhe contei o que estava sentindo. “ Eu entro em sua casa há 30 anos, se você não se sentisse meu amigo seria estranho,” brincou Galvão ao ouvir minhas impressões.
Galvão Bueno deve ser o jornalista esportivo mais amado e mais ‘cornetado’ do Brasil. É amado e odiado na mesma proporção. Diz que nem liga para isso. Me contou que certa vez, o Maracanã lotado o chamou de viado. As torcidas unidas em uníssono gritavam: Galvãããão, Viiiiiaado.
-No estádio estava minha esposa Desirée, meu filho pequeno Luca, mais Popó e Cacá. Minha esposa tapou os ouvidos do Luca para ele não ouvir. Quando os encontrei depois do jogo perguntei a Cacá e ao Popó se eles também haviam me xingado. “Claro, disse Cacá”. “ Senão não teria graça”, lembrou rindo, Galvão.
Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 21 de julho de 1950. Começou a vida como radialista, em São Paulo. Há 30 anos, é o principal locutor esportivo da Rede Globo. Sua maneira ufanista de narrar qualquer evento envolvendo equipes ou seleções brasileiras o levou a ser, o mais criticado de todos os profissionais da área. Ele diz que não liga para isso. Se é comentado, prova que é conhecido.
- Eu sou polêmico. Só digo o que penso e não escondo as coisas que sinto. Outra coisa: eu lido com paixão. Sou um torcedor na medida do possível. Na verdade eu me considero um vendedor de emoções. Eu mexo com a paixão dos clubes, a paixão dos torcedores por aqueles esportes, por aquele atleta, etc. Então eu provoco as pessoas e é normal esse tipo de reação. Ainda bem que a parcela dos que me amam é bem maior do aqueles que me cornetam ou me xingam.
Para se ter uma idéia da paixão dos brasileiros por Galvão Bueno, outro dia, ele teve que sair escoltado de uma treino da Seleção Brasileira em São Luiz do Maranhão. Na verdade, saiu escondido dentro de uma ambulância, pois a policia local informou que não tinha condições de garantir sua chegada até o carro da Globo, tal a quantidade de fãs que o esperava no caminho. Parecia coisa de artista de cinema. Mesma coisa aconteceu em Belém do Pará recentemente. Galvão saiu do aeroporto escoltado pela Brigada da Policia Militar local, tal a tietagem e o assédio dos fãs.
-Nunca imaginei passar por isso tudo. Também não imaginava ver 100 mil pessoas me chamando de viado no Maracanã.
Como já foi dito, Galvão Bueno é carioca. Nasceu no bairro da Tijuca, na Clínica do Dr. Élio, na Rua Haddock Lobo. Sempre foi esportista. Praticou todos os tipos de desportos possíveis. Jogou vôlei, handebol e futebol. Fez natação, atletismo e hipismo. Foi profissional em apenas um esporte: basquete. Era Ala armador mesmo não tendo estatura para isso. Segurava a vaga no talento.
-Era outra época. Se fosse hoje, seria armador recuado, brinca.
Galvão começou sua brilhante carreira de narrador esportivo na Rádio Gazeta, em São Paulo em 1974. Era comentarista de tênis. Em 1977 teve uma passagem relâmpago, de apenas dois meses, pela Record. Antes dos Bispos. No tempo da família Machado de Carvalho. No mesmo ano foi contratado pela Rede Bandeirantes. Foi nessa época que virou narrador, meio por acaso.
-Fui contratado para ser comentarista na Rádio Bandeirantes mas não deu certo. Foi então que o Darci Reis - que já se foi e era uma pessoa muito querida- me perguntou se eu como carioca, não queria voltar para o Rio. Então ele me falou para ser o narrador da TV Bandeirantes no Rio de Janeiro. Eu disse que não. Que nunca poderia narrar uma partida de futebol. Ele me perguntou por quê. Ora, eu nunca vou conseguir narrar um gol na minha vida. Morria de vergonha. Ele me pediu para tentar. Fui e estou tentando até hoje. Em 1981 fui para a Rede Globo, onde estou até hoje.
Bem amigos
Poucas pessoas sabem, mas Galvão saiu da Rede Globo por alguns meses. Em 1992 foi contratado para trabalhar na CNT, onde ficou menos de um ano. Em seguida voltou a empresa dos Marinho para nunca mais sair. Diferentemente do ator Paulo César Pereio, Galvão Bueno diz que não conseguiu conquistar muitas mulheres com sua voz. Para ele, Pereio tem a voz mais linda e sensual do Brasil, mas também é muito cascateiro. A primeira partida de futebol que Galvão narrou foi Flamengo e Jorge Wiltermann, pela Copa Libertadores das Américas, em 1981.
-Eu fui levado para a Globo mais pela Fórmula 1- que era o carro chefe da emissora. A carreira de Emerson Fittipaldi estava no fim e o Piquet estava surgindo. Pouca gente sabe, mas aquela musiquinha que tocava sempre que Ayrton Senna vencia uma corrida de Fórmula 1 não foi criada para ele e sim, para o Nelson Piquet. Mas foi consagrada com o Ayrton. O Tema da Vitória é de autoria do maestro Eduardo Souto Neto. Ele fez o tema a pedido da Globo que queira um grand finale para as corridas.
Perguntado sobre quem foi mais piloto, se Senna ou Piquet, Galvão não pensou duas vezes. Senna é claro. E não apenas em relação a Piquet. Para Galvão, seu amigo Ayrton foi o melhor de todos. Alias, Galvão nunca escondeu seu carinho por Ayrton Senna. A morte prematura do tricampeão mundial de Fórmula 1, lhe afetou em cheio. Para Galvão, Piquet era um gênio, mas Senna era mais completo.Outro dia, ele teve uma grata surpresa. Estava no Rio São Francisco, entre as cidades de Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco) quando tocou seu telefone. O prefixo era de Brasília. Algum político, pensou. Qual o quê. Era Nelson Piquet que queria lhe agradecer. Dias antes Piquet havia desfilado com um carro da Brabham no Grande Prêmio de São Paulo. Esse carro lhe deu o título mundial em 1981.
-Piquet queria agradecer. Eu fiquei muito emocionado quando vi Piquet naquele carro. Estava chorando ao lado do Reginaldo Leme. Foi difícil falar. Minha vida passou à minha frente. São 30 anos de história. Disse a ele que tudo que havia falado, foi do fundo do coração.Piquet não é apenas um ídolo. É um herói do esporte brasileiro. Eu nunca briguei com Piquet. Eu apenas achava o Ayrton mais completo. E isso gerou ciúmes entre os fãs dos dois.
Não poderíamos terminar a entrevista sem perguntar ao Galvão suas expectativas para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Galvão não têm duvidas quanto a questão dos estádios. Diz que tudo vai dar certo. Teme apenas a questão da infra-estrutura. Para ele, vamos dar vexame nos aeroportos , estradas e transporte publico.
Em Copas do Mundo, tive três momentos de extrema emoção como narrador: a Copa da Argentina, que foi minha primeira; a final da Copa de 1994, nos Estados Unidos, quando vencemos a Itália nos pênaltis e a Copa da África, a mais emocionante de todas pelo que significou para um continente, para um povo. Conheci a África do Sul em 1982,quando fui narrar uma corrida de Fórmula 1 no circuito de Kyalami. Era um país cruel. Nos shoppings havia pezinhos desenhados no chão. Pés brancos para os brancos e pretos para os negros. Nos banheiros dos brancos podíamos ler: só para brancos. Nos banheiros do negros estava escrito: não é bom para os brancos.Uma coisa terrível. Tudo isso acabou depois do Mandela. Por isso me emocionei tanto. Quanto a Copa de 2014, tenho certeza que na parte esportiva, o Brasil vai dar um show. Os estádios estarão prontos com certeza. Já na questão da infra-estrutura, estradas, portos e aeroportos, tenho minhas dúvidas. Mas meu problema é o esporte. A questão da infra-estrutura, a Dilma que resolva.
Galvão Bueno já avisou: encerra sua carreira de narrador de futebol na Copa de 2014, quando completa 40 anos de televisão. Vai parar de narrar futebol. Mas vai continuar com os esportes olímpicos e mergulhar de cabeça no MMA, aquelas lutas mais conhecidas como Vale Tudo, onde a porrada corre solta. Para quem têm memória curta e acha que Galvão está entrando num terreno que não conhece, aqui vão algumas informações: ele narrou lutas memoráveis de boxe. Transmitiu lutas de Muhammad Ali, Joe Frazier, George Foreman, Sugar Ray Leonard, Evander Holyfield, Mike Tyson, Popó, Maguila, etc. Mas será que Galvão vai levar o Arnaldo César Coelho para comentar as lutas?
- O Arnaldo é minha paixão, mas não vou levar não. O negócio dele é arbitragem de futebol. No MMA ele daria cartão vermelho a todos. As pessoas acham que a gente briga muito, mas na verdade, a gente se ama.